O boicote é só ao outro?
- 20 de set. de 2016
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Vejo quem boicote Aquarius porque discorda da manifestação política da equipe do filme em Cannes. Vejo quem boicote Pequeno Segredo porque ele não tem currículo para representar o Brasil no Oscar. Lembro do boicote a Big Jato por causa do machismo de Cláudio Assis, do boicote a Woody Allen por causa do abuso à enteada, do boicote a Polanski por causa do estupro, e a tantos outros artistas que fizeram, para ser sutil, grandes bobagens.
Longe de colocar todas as motivações de boicote num mesmo volume, porque não dá para comparar um estupro com uma manifestação pacífica, e longe de colocar todos os diretores num mesmo nível de excelência artística, porque Polanski e Woody Allen estão num panteão que talvez nenhum dos outros nunca chegue. O ponto aqui é outro.
Seja com com Marilyn Monroe ou Johnny Depp, Clint Eastwood ou Leni Riefenstahl, Caetano, Phil Anselmo ou Richard Wagner, Bukowski ou Monteiro Lobato, enfim, escolha uma arte e escolha nomes que você gosta ou reconhece como importantes nela. Alguém vai ter feito uma grande bobagem, provavelmente alguma até imperdoável. Talvez esse alguém colecione grandes bobagens imperdoáveis.
Isso é tentador para um olhar de cima, que se sente imaculado e adora sair apontando o dedo, com saudades da inquisição.
Um olhar que vai nos levar ao dia em que, para decidir se vai ou não ver um filme, a pessoa vai ler a biografia do diretor. A autorizada e a não autorizada. Vai querer conhecer a relação dele com a receita federal, com seus subordinados, com a família, o histórico de cônjuges, de amigos, e de sócios. Se ele dava bom dia no mercado. Se o processo de seleção do filme para aquela sala de exibição foi honesto. Antes de comprar o ingresso, vai pedir o currículo e a ficha corrida de todos os que investiram no filme, que é bem caro. Vai passar a vida inteira só olhando e julgando a vida dos magnatas dos grandes estúdios, dos grandes financiadores, dos grandes milionários, dos governos.
Vai sobrar algum filme bom sem boicote?
Lógico que a vida é curta demais para os filmes que, no trailer ou no cartaz, têm todas as ferramentas da ruindade. Esses boicotes são bem-vindos, são os melhores. Entendo outros boicotes que mexem com valores e questões muito caras a algumas pessoas, e me incluo aí também, já que estou longe de ser o rei da misericórdia. Por outro lado, tenho a impressão que, boicotando grandes filmes que não são de pessoas “à altura”, e aqui as aspas são importantes porque o mal e a polêmica sempre vendem mais notícias, boicotamos toda uma equipe.
Vale a pena boicotar toda uma equipe, também responsável pelo êxito daquele filme, por causa de uma pessoa?
Para completar, o boicote ao outro pode ser também a privação de um grande filme, de uma grande experiência. Com a presença de dezenas de pessoas talentosas, que podem ser grandes pessoas. A privação vira um boicote a todas elas, vira também um auto-boicote. Segue valendo a pena?
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