O tamanho da falta
- 3 de ago. de 2016
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Desconfio que no cinema, até por ser um dos raros relacionamentos que costuma ser a dois, a relação mais pessoal e potencialmente conflituosa tende a ser diretor(a)-montador(a). Quando funcionam, e quando eventuais desprazeres ou circunstâncias da vida não afastam os dois, se tornam verdadeiros casamentos criativos, com a diferença que o prazer do resultado é compartilhado também com nós, o público que assiste aos filmes. Isso ficou ainda mais claro para mim sexta-feira, revendo Kill Bill Vol. 1 (2003), agora no cinema.
Na primeira parte dessa história de amor com sangue, vingança e dor de cotovelo, Tarantino está excelente como roteirista, dialoguista e principalmente encenador, mas está também atingido o auge do casamento criativo com Sally Menke, sua montadora. Dez anos mais velha, Menke editou todos os longas de Tarantino de Cães de Aluguel (1992) até Bastardos Inglórios (2009). Foram sete filmes e 17 anos de uma relação que foi maravilhosa, pelo menos para quem vê os filmes.
Antes de voltar ao ponto, duplas longevas remetem a Polanski e Hervé de Luze, com colaboração que começou em 1986 e não parou desde 1992, Coppola e Walter Murch, que entre alguns hiatos têm 30 anos de Apocalipse Now (1979) até Tetro (2009), Eastwood e Joel Cox, que fizeram quase tudo juntos desde Rota Suicida em 1977, mas a maior delas deve ser mesmo Scorsese e Thelma Schoonmaker. Trabalham juntos em todos os filmes dele a partir de Touro Indomável (1980), mas como primeira parceria foi em Who’s that knocking at my door (1967), ano que vem dá para falar em Bodas de Ouro; para se ter uma ideia, em 1967 Tarantino era uma criança de 4 anos. Hoje diretor tanto quanto pop-star, ele nunca teve um companheiro ou companheira profissional tão presente e relevante quanto sua montadora e, ao que tudo indica, não terá um equivalente (e precisa?) ao que os diretores acima tiveram. Assim, quando uma onda de calor em Los Angeles levou Sally Menke, foi inevitável pensar: o que será de Tarantino?
Quem assumiu o lugar, Fred Raskin, foi assistente de Menke nos dois Kill Bill, é 20 anos mais jovem, e tinha como principal trabalho a montagem de um número da franquia Velozes e Furiosos. Editou Django Livre (2012) e Os Oitos Odiados (2015), dois filmes que, além de não me parecerem ter um Tarantino tão inspirado, e de não terem algumas sutilezas criativas de Menke, parecem durar demais.
Por outro lado, me pergunto: essa impressão de como o filme lida com o tempo tem menos a ver com Sally Menke e mais com o fato de que, tentando agora ser um revisionista da história americana, Tarantino não é tão bom quanto o roteirista-diretor que foi até Bastardos Inglórios? Quanto da montagem de Kill Bill estava previsto no roteiro, na direção ou foi ideia dela? Quanto de Sally Menke ele ouviria mais do que ouviu Fred Raskin, na hora de cortar Django Livre e Os Oito Odiados? Qual o tamanho real da falta que Sally Menke faz a Tarantino?
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