Advogado e jesuíta de um testamento
- 8 de ago. de 2016
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Como Aniceto (2008) é, de longe, o filme menos conhecido que já citei aqui, hoje o tom é de advogado e jesuíta, uma defesa e uma catequese.
Porque quando se fala tanto, e com justiça, de um cinema argentino que chega para o mundo, Favio é o diretor de Crônica de uma criança solitária (1965), que numa enquete feita pelo Museo de Cine Argentino com 100 especialistas em 2000, foi eleito o maior filme da história vizinha.
Porque mostrar trechos de Aniceto causou alvoroço, um verdadeiro rebuliço em sala de aula, na disciplina História e Estética do Som do Cinema, e isso depois de alunos terem contato com muita obra-prima hollywoodiana.
Porque Favio, nos anos 1960 um prodígio como cantor, ator e diretor, não tem receio de refilmar o próprio filme, O Romance do Aniceto e da Francisca (1967), um drama que, 41 anos depois, ele transforma num musical grandiloquente.
Porque as atuações, as danças, os cenários, a fotografia, a música, é tudo maior que a vida, flerta com ou abraça o excesso, mas tudo está em sintonia: é criado um mundo que só existe dentro do e para o filme.
Porque ele transforma briga em balé, mistura Caribe e Chopin, mas às vezes quer só filmar a beleza e a grandeza dos dois (ou três) rostos e corpos que são seu filme.
Porque ele não esconde o desejo de transformar todos os planos em quadros emoldurados, em pinturas, como se eles fossem os últimos que Favio tinha para filmar.
Porque, de fato, eles foram os últimos: como os créditos dão a entender com tantas dedicatórias, talvez Favio já desconfiasse que fazia seu filme testamento.
E que testamento!
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